Votar contra não é um projeto de país
Faltam poucos dias para o segundo turno, e uma pergunta simples continua sem resposta em boa parte da campanha: o que você vai fazer por mim?

Faltam poucos dias para o segundo turno, e uma pergunta simples continua sem resposta em boa parte da campanha: o que você vai fazer por mim?
Em muitas conversas, nas redes e em parte do discurso de campanha, o argumento se resume a uma frase: “não voto nele porque ele é fascista”. A frase pode vir de uma convicção sincera, e não cabe a um artigo como este decidir se ela é verdadeira. O que cabe é apontar o que ela não é: um plano de governo. Ela diz o que o eleitor deve rejeitar, mas não diz o que ele vai receber.
O conforto de atacar
Atacar é fácil, e é também uma estratégia segura. Quem só critica o adversário não precisa explicar de onde virá o dinheiro, qual será a política de juros, como a saúde vai melhorar ou o que será feito para reduzir a violência. Sem proposta concreta, não há o que ser cobrado depois. A campanha negativa protege o candidato do escrutínio.
E não é fenômeno de um lado só. Analistas já previam que a corrida de 2026 seria marcada por narrativas e ataques entre candidatos, em detrimento de propostas de governo. Do outro lado do espectro, o discurso anti-PT e a agenda anticorrupção cumprem o mesmo papel: parte das candidaturas da oposição se apoia fortemente na rejeição ao PT. A crítica aqui vale para qualquer campanha que troque projeto por rótulo, seja qual for o rótulo e seja qual for o lado. portaltela opovo
O que o eleitor perde
O primeiro prejuízo é o próprio voto, que deixa de ser uma escolha e vira uma fuga. Quem vota “contra” não sabe, no dia seguinte, o que o eleito se comprometeu a fazer. Governos eleitos assim chegam ao poder sem mandato programático: venceram a rejeição ao outro, mas ninguém sabe ao certo o que foi aprovado.
O segundo é a qualidade do debate. Quando o adversário é tratado como ameaça existencial, a conversa deixa de ser entre quem pensa diferente e passa a ser entre quem está certo e quem é cúmplice. O eleitor do outro lado, que a campanha precisaria convencer, é justamente o que se sente ofendido. Chamar de fascista o candidato que milhões de brasileiros escolheram sugere, indiretamente, que esses milhões são ingênuos ou perigosos. Ninguém muda de ideia depois de ser insultado.
O terceiro é o desgaste. Há um limite para quanto a pessoa aguenta de hostilidade antes de concluir que “são todos iguais”. Já havia sinais de insatisfação com os candidatos e crescimento da intenção de não votar em 2026. Campanha rasa não apenas deixa de informar: ela afasta. correiobraziliense
O quarto é o mais concreto. O Brasil tem problemas que não esperam o fim da disputa. Segundo uma análise de conjuntura, a expectativa era de PIB de cerca de 2% e inflação de 5,3% em 2026, acima do teto da meta. Juros altos, custo de vida, emprego e segurança são o que pesa no bolso e na rotina. Enquanto a campanha discute quem é pior, esses temas ficam em segundo plano. poder360
O que se espera de uma campanha
Alertar sobre riscos é legítimo. Se alguém acredita que o adversário ameaça as instituições, tem o direito, e talvez o dever, de dizer isso. Mas o alerta é uma parte da mensagem. A outra parte, a que falta, é dizer o que será feito, como, com que recursos e em quanto tempo.
O eleitor não precisa de mais um motivo para ter medo. Precisa de motivos para escolher. Quem pede o voto deveria ser capaz de completar a frase “voto em mim porque eu vou…” sem mencionar o nome do adversário. Se não consegue, o problema não está no eleitor que desconfia. Está na campanha.